domingo, 20 de novembro de 2011

As Aventuras de Ngunga pelo Olhar de Marisa Lajolo


Em todos os tempos, as narrativas, sejam elas orais ou escritas, sempre serviram à humanidade como fontes de inspiração, reflexão e mesmo como conselhos úteis para ajudar homens e mulheres a enfrentar os momentos mais desafiadores de suas vidas. Não raras vezes, também, colocaram-se como instrumentos de determinados grupos, a fim de disseminar suas idéias e visões do mundo.

Em Burkina Faso, por exemplo, um dos papéis dos griôs, casta responsável, entre outras coisas, pela manutenção das tradições orais, é cantar a história, a memória e a glória dos líderes de suas tribos e de seu país (GAVRON, 2008).

Ora, Lajolo(2002) trata, neste texto, de um tipo especial de narrativa: a história de uma criança órfã em meio às transformações políticas pelas quais seu país passa, em meio a guerras e lutas, obrigada a desenhar um percurso de sobrevivência e, ao mesmo tempo, de superação. Por outro lado, em meio às suas aventuras e desventuras, o herói leva o leitor a também se posicionar politicamente, sendo chamado a aderir a uma determinada bandeira. No caso de Ngunga, ponto de partida para que Lajolo inicie tal texto, é pela libertação de Angola e seus combatentes que a narrativa de Pepetela se tece.

Lajolo, no entanto, parte de um referencial europeu. Ela coloca, inicialmente, o texto “As Aventuras de Ngunga”, de Pepetela, como uma mera reprodução de um modelo já experimentado na Europa, colocando frente a frente uma tensão conhecida por todos os países colonizados, a fragilidade das próprias narrativas frente às dos colonizadores.

A autora coloca, inclusive, o pacto entre o político e o literário como um projeto da tradição ocidental moderna, puxando mais à frente uma outra reflexão importante: o mesmo instrumento que é capaz de se inscrever em uma cultura colonial opressora, pode ser igualmente colocado à disposição da resistência, da contracultura e mesmo servir como arma revolucionária.

A questão, de fato, não parece ser a adaga, mas quem a impunha e como o faz. Ainda assim, no entanto, as marcas de quem forja a arma não podem deixar de transparecer. Logo, mesmo tendo que ser um instrumento afiado e poderosamente capaz de cortar, nas mãos de quem dá forma ao objeto, aparece naturalmente as marcas do que lhe é próprio, de sua identidade. É assim que Ngunga possui um fio condutor semelhante a histórias européias de mesma intencionalidade, mas cria trajetos singulares: a linguagem quase oral, o desapego pela escola, o destino indefinido do herói.

Lajolo afirma, no decorrer de seu texto, que possivelmente o problema de quem faz a análise de um texto como este está mais nos óculos que porta do que, exatamente, no objeto que vê. Não à toa, ela principia a análise do texto de Pepetela partindo dos próprios referenciais, enxergando o texto africano a partir dos textos europeus, como mera reprodução destes, inclusive numa intencionalidade inaugurada supostamente pela tradição ocidental moderna.

Ao desenvolver, no entanto, reconhece os traços não mais do colonizador, mas do colonizado no texto, incluindo as tensões e impasses que estabelece com as instituições do primeiro: entre elas a escola, a leitura e a escrita. O que antes era apenas mais uma maneira de imposição do colonizador, torna-se instrumento dos colonizados nos processos de reconquista da própria liberdade e identidade.

A autora alerta aos profissionais da leitura, para que estejam atentos, em seus estudos para tais movimentos. Poderíamos dizer, para que estejam atentos aos óculos que utilizam e aos objetos que desejam conhecer. Para tanto, os caminhos são tortuosos e merecem, sem dúvida, muitas incursões e aprofundamentos.

Nem mesmo Lajolo escapa a isso. De fato, o uso político das narrativas não é algo novo na África e, por outro lado, em um mundo eminentemente marcado pelo universo oral, cujas noções de autoria são inteiramente distintas da tradição ocidental européia, não necessariamente existe a reprodução de textos, mas a atualização deles no presente, no aqui e agora.

“As Aventuras de Ngunga” é, portanto, um caso importante, em que se articulam o encontro de diferentes tradições, caminhando, no entanto, por intencionalidades similares, por isso, não se furtando às necessárias trocas e apropriações.


Bibliografia:

GAVRON, L. Yandé Codou Sène, Diva Seéréer. [S.l.]: Mbokki Mbaar Productions, 2008. (Filme)
LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6th ed. São Paulo: Editora Ática, 2002.

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